Notícia

02 de Junho, 2020

Athletica Vaticana e o leilão solidário. Ravasi: grande apoio do Papa

Próximo do início da corrida de solidariedade em favor de hospitais, o testemunho do presidente do Pontifício Conselho da Cultura: "o esporte deve ser como a música: uma espécie de esperanto universal, uma linguagem universal."

Tem início no próximo dia 8, na plataforma digital “Charitystars.com” o leilão beneficente “We run together” (Nós corremos juntos) promovido pela Athletica Vaticana, Fiamme Gialle, Pátio dos Gentios e Fidal-Lácio para apoiar a equipe de saúde dos hospitais de Brescia e Bérgamo, nos últimos meses, na vanguarda da luta contra a pandemia da Covid-19. Estão em jogo, nesta disputa inédita de solidariedade, objetos e experiências esportivas com campeões olímpicos com várias medalhas, mas também alguns dons especiais oferecidos pessoalmente pelo Papa Francisco para a ocasião.

 

“We run together”

 

Em 20 de maio passado, o Pontífice recebeu em sua biblioteca particular uma pequena delegação de atletas que participariam do encontro homônimo, marcado para 21 de maio e depois suspenso por causa da situação de saúde internacional.

Na ocasião, o Papa Francisco mostrou grande interesse pela iniciativa de “sua” equipe de corrida, recordando o exemplo dos peregrinos medievais que caminhavam “no ritmo dos mais fracos”, bem como dos campeões que escolheram participar do evento e depois a esta corrida virtual. É o que confirma nesta entrevista o cardeal Gianfranco Ravasi, que como presidente do Pontifício Conselho da Cultura apresentou o leilão beneficente ao Papa:

 

Ravasi: O encontro com o Papa foi muito intenso, também porque o Papa o desejou expressamente. Eu não tinha solicitado uma audiência nessa ocasião. Eu fiz para o evento esportivo previsto de 20 a 21 de maio, com os campeões olímpicos que, segundo o programa, deveriam competir em Castelporziano com atletas paraolímpicos, esportistas com deficiência mental, refugiados, migrantes e encarcerados. Não imaginei que poderia fazer, apenas com um pequeno grupo, essa audiência papal que deveria se realizar com centenas de pessoas. Em vez disso, Francisco foi quem a organizou, num certo sentido. Era uma quarta-feira e havia uma audiência geral na biblioteca particular do Pontífice e nós deveríamos encontrá-lo brevemente numa das salas laterais, numa salinha, enquanto o Papa queria que o encontro se realizasse novamente na biblioteca e na ocasião ele fez uma série de declarações demonstrando uma grande participação na iniciativa. Talvez também porque a saudação que eu lhe dirigi tivesse como ponto de referência a frase “We run togheter” em inglês, que tem uma transcrição um pouco livre em latim, língua oficial da Santa Sede, “Simul currebant”. Por trás dessas palavras esconde a citação não fácil que o Papa reconheceu imediatamente: a do vigésimo capítulo do Evangelho de João, quando na manhã de Páscoa dois discípulos, o predileto, que mais tarde foi identificado em João, e Pedro, correm juntos, e se diz explicitamente “simul currebant” na tradução latina do Evangelho de João, para ir ao túmulo de Cristo depois de receber a notícia de que talvez houvesse algo inesperado. Mas o curioso é que aquela corrida acontece de uma maneira particular: quem corre mais evidentemente é o discípulo que Jesus amava, o mais jovem, enquanto Pedro fica para trás. Mas, chegando diante do Sepulcro de Cristo, João para e quase com um “fair play” (jogo limpo) esportivo espera Pedro chegar e lhe concede sua primeira entrada na gruta sepulcral. Essa frase que o Papa comentou era um símbolo dessa iniciativa, porque os atletas olímpicos que participam estão prontos para ceder o passo aos atletas de outras categorias que também foram representadas naquele dia.

 

A equipe da Athletica Vaticana e essa iniciativa de solidariedade particular nascem dentro do Dicastério que o senhor preside, como explica isso?

 

Ravasi: Quando se fala de esporte é importante voltar sempre à sua gênese. Hoje, o esporte geralmente reflete as degenerações da pessoa humana e da sociedade: pensamos na violência nos estádios, no racismo, no fenômeno do doping ou aos excessos econômicos e na corrupção que predominam sobretudo no mundo do futebol, que é o esporte mais popular. Mas, por sua natureza, como eu disse, o esporte nasceu como um ato gratuito e é, num certo sentido, semelhante à arte. De fato, estamos sempre no âmbito do jogo e o jogo é sempre algo que se realiza de maneira livre e criativa, e não por interesse. Na verdade, o esporte deve ser a expressão da criatividade da pessoa e, portanto, um fenômeno cultural de base. Segundo os grandes antropólogos culturais, o hominídeo, o homem verdadeiro e próprio, o Homo sapiens sapiens, realmente apareceu na evolução quando, como diz um belo texto simbólico japonês, pela primeira vez essa espécie de primata, que é o homem, colheu flores e relva não para se nutrir, mas para criar um colar e colocá-lo no pescoço de sua mulher. Naquele momento, ele realiza um ato inútil do ponto de vista econômico, mas a partir dali, através do símbolo, do jogo e da arte nasce realmente a criatura humana. Por isso, foi dito justamente que o esporte deve ser como a música: uma espécie de esperanto universal, uma linguagem universal. É por isso que queríamos que na equipe vaticana e nessa iniciativa fossem envolvidas pessoas sem aqueles “equipamentos” que possui o campeão esportista. Na audiência com o Papa Francisco, havia uma menina de 11 anos que é um pouco a mascote da Athletica Vaticana: Sara Vargetto. É uma atleta em cadeira de rodas com uma doença degenerativa, ou um estrangeiro, Charles Ampofo, um atleta migrante de Gana que chegou à Itália num barco depois de um longo cativeiro na Líbia. Há uma atleta que é uma prisioneira no cárcere feminino de Rebibbia, onde é a capitã do time de futebol. Também havia grandes atletas como Fabrizio Donato, corredor de longa distância e triplo, capitão da seleção italiana de atletismo. Portanto, o esporte autêntico é um fenômeno antropológico, ou seja, humano, radical, que pode ser declinado em formas diferentes por todos, não apenas pelos esportistas profissionais.

 

No dia de Pentecostes, o Papa disse que o pior dessa pandemia seria o drama de desperdiçá-la. Essa iniciativa beneficente da Athletica Vaticana também segue nessa direção?

 

Ravasi: Certamente. Esta é uma corrida num certo sentido virtual: se realiza numa plataforma digital, “Charitystars.com”, que de 8 de junho a 8 de agosto, toda semana, terá seu escaneamento, um significado simbólico, mas também dons importantes. Começaremos com um objeto que o Papa, um pouco de surpresa, decidiu nos presentear. Francisco nos deu a bicicleta personalizada com as cores da Santa Sé e da Argentina que ele recebeu do campeão mundial de ciclismo, Peter Sagan. Mas o Papa doou ainda outros objetos porque ele quer participar idealmente dessa corrida e, assim, toda semana um objeto especial doado por ele será leiloado. Mas existem todos os outros presentes que serão oferecidos por um grande número de atletas que disponibilizaram seus símbolos, uniformes ou equipamentos competitivos: camisas de jogo, botas de esqui etc. Existe a possibilidade de fazer um passeio numa das embarcações a vela Luna Rossa, atualmente ancorada no porto de Cagliari. Por fim, há atletas que, além de oferecer o blusão que usavam para participar dos Jogos Olímpicos, como faz, por exemplo, o ex-canoísta Antonio Rossi, também leiloam a possibilidade de jantar com um dos vencedores ou com dois dos vencedores, um jantar talvez preparado por sua própria esposa ou marido. Oportunidades de encontro com grandes campeões do esporte italiano que podem ser conquistados com uma oferta de solidariedade.


Fonte: Vatican News


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